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Como já dizia Gilberto Gil, “vida é confusão”. Descobri isso de forma literal nos meus 59 anos, quando decidi comemorar com um festão (muito mais legal do que festejar os óbvios sessenta!), cujo tema era exatamente esse: “vida, a preciosa confusão”. A proposta era simples. Celebrar a arte de viver como a capacidade de manejar, melhor ou pior, o caos inevitável da existência. Flexibilidade diante dos desafios, valorizar o que se aprende nos momentos difíceis, fazer do limão uma limonada, transformar encrenca em oportunidade.

E eu levei a sério. A trilha do “áudio-convite” da festa foi o ‘Concerto para piano e cachorro pequeno, em dó maior’, em que, no meio de uma gravação comigo tocando piano, nosso cachorro Zé Pequeno começa a latir (para os curiosos, vale “ouvir o convite” no áudio artigo). Eu reclamo com ele, mando ele parar. Como ele não me obedece, de repente eu começo a entender que… tava legal! E a gente começa a levar um som juntos! Minhas filhas dizem que é positividade tóxica. Mas eu insisto e sigo achando, até que me provem o contrário, que vale a pena tentar achar o lado melhor em… quase tudo. A sorte de estarmos vivos neste planeta incrível nos traz a obrigação de honrá-la e celebrá-la.

Quanto à festa, claro, foi um retrato dessa mistura em todos os sentidos. Começando pelo rango: ao invés do ‘bufê harmonizado’, a bagunça das coisas mais gostosas da cidade — do arroz de cordeiro da Sônia ao sushi do Gurume, das saladas do Celeiro ao sorvete de pêra do Momo, amanhecendo com pão na chapa, café coado e chocolate da Dengo! Um cardápio caótico e delicioso, como a vida de fato é. Uma preciosa confusão, escolhida, cultivada, celebrada. E, quando me dei conta, percebi: mais do que comida, música e arte, meu desejo maior, ao investir tempo, energia e grana para reunir 250 amigos, era criar um espaço para encontros. Gente diferente, de mundos diversos, compartilhando música, dança, conversa. E funcionou! Doze horas de festa em que celebramos as misturas inusitadas, o caos, catalisando a diversidade. Amigos das minhas filhas com amigos do meu pai, meus irmãos e irmãs da vida toda conhecendo os amigos de amigos que chegavam. E por aí foi…

No fundo, é isso que as celebrações fazem: elas juntam as pessoas. E festas são a origem da cultura. Das celebrações das colheitas às festas para os mortos, a cultura emerge dessa necessidade humana de compartilhar razões para seguirmos juntos como grupo, como famílias, como nações.

Talvez por isso tenha sido tão simbólico que, no dia seguinte, o domingo, 21 de setembro, tenha acontecido essa catarse em escala nacional. O Brasil, mergulhado em uma confusão sem tamanho, com julgamentos, discursos inflamados, turbulências e ruídos de toda ordem, e então, na praia de Copacabana, uma grande festa pela liberdade, pela democracia, catalisa a multidão. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Paulinho da Viola reunindo mais de 40 mil pessoas nas calçadas, nas areias. Ali, a cultura funcionou como ímã, um polo de atração capaz de aproximar gente diversa: de esquerda, de direita, conservadores e progressistas. (Afinal, quem de verdade não gosta desses caras?) Pessoas que, em outro contexto, estariam separadas por nossos quase intransponíveis muros ideológicos, mas que, naquele instante, partilhavam o mesmo espaço, a mesma canção, o mesmo senso de pertencimento. A cultura dilui fronteiras. Aproxima, conecta, mistura, cria vínculos, cumplicidade, sentido comum.

E a história tá cheia dos melhores exemplos. Sempre que a liberdade é ameaçada, a cultura se levanta como trincheira. Woodstock, em 1969, foi a resposta simbólica de uma geração à Guerra do Vietnã. As Diretas Já, nos anos 80, só ganharam força porque músicos, atores e poetas emprestaram sua voz ao desejo coletivo. O Rock in Rio de 1985 foi mais do que entretenimento: foi o batismo de uma democracia que ainda engatinhava. A queda do Muro de Berlim foi celebrada em concerto, porque a música sabia o que a política ainda não conseguia formular. Do rap tunisiano na Primavera Árabe às canções de exílio de Caetano e Gil, a história mostra que é sempre a cultura que abre frestas quando os muros parecem intransponíveis. E é exatamente pela sua capacidade de ativar resistências que todo líder autoritário investe pesado contra ela, desmerecendo-a, censurando-a.

A política oscila, avança e recua; ganham uns, perdem outros e vice-versa. Com a cultura é diferente. Ela pode ser abafada por um período, mas acaba sempre reemergindo. A cultura é o campo invisível, mas poderoso, em que se costura pertencimento, lembra valores essenciais e projeta futuro. É a ecologia da liberdade. E talvez seja por isso que, diante da confusão, da violência, da sorte de loucuras e surrealismos que estamos vendo no mundo, só a arte possa nos salvar!

Narração:
Fred Gelli  

Trilha Original, Captação, Edição de áudio:
Felipe Habib – Oitooito estúdio

Comunicação e Mkt. :
Luiza Magalhães, Bruno Cesar e Marcelo Cândido

Assessoria:
Flávia Nakamura

Fast Company Brasil:
Mari Castro  

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Diante do caos da existência, só a arte salva

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