A inteligência social, as filas no SXSW e a viagem para a lua de Júpiter!

Cinco dias no SXSW foram uma inspiração poderosa para a escolha do tema para este artigo. Com tanta coisa acontecendo em tão pouco tempo, tanta gente inteligente pelas sessões do centro de convenções, pelos corredores, nas happy hours e nas festas, participar do festival representou quase que uma overdose de insights e provocações.

Como esperado, as inteligências artificiais, suas dores e delícias foram o tema recorrente dentro e fora dos palcos. Amy Webb coloca lenha na fogueira adicionando outras duas tecnologias que juntas formam o que ela chama de “superciclo’’, os sistemas de wearables interconectados e a biotecnologia. O impacto desse alinhamento de inovações disruptivas vai transformar exponencialmente nossas vidas.

Até aí nenhuma grande surpresa. A novidade mesmo, para mim, nesses dias que estive por lá com meu sócio Pedro Medicis, foi a “inteligência social”. Aquela que sempre usamos, que nos trouxe até aqui e que nos diferencia de outras espécies. Uma capacidade de conexão bem diferente da que acontece virtualmente, que tem a ver com o olho no olho, com a proximidade e o imprevisível, com o abraço e com uma energia abstrata difícil de definir. Aquela que desenvolvemos lá atrás em volta das fogueiras, nas rodas de tambores ancestrais, em que por meio da música, das histórias e das experiências compartilhadas, criamos cultura e abrimos espaço para resolvermos desafios de nossa trajetória.

Na minha opinião, o melhor do festival foram as trocas que aconteceram com o poder real do encontro. Parece brincadeira, mas um dos pontos altos eram as grandes filas para as palestras, em que esbarrávamos com amigos, clientes ou simplesmente começávamos a conversar com um desconhecido genial que veio do outro lado do mundo.

Credit: Reprodução/ Instagram

Aqui as trocas são ricas com pontos de vista sobre conteúdos se misturando, ideias surgindo reforçando relações que já existiam ou abrindo espaço para novas. Alguém me disse que deveriam acabar com as filas usando RFADs nos celulares e eu disse “nãoooo”! O tempo de respiro entre conteúdos e as trocas especiais, mais do que justificam essa estrutura quase pré-histórica. Também destaco os funcionários com bandeirinhas super analógicas sinalizando o “end of the line”.

As happy hours e as festas e até o famoso Pete’s também foram palco de muita conexão legal. A mistura de gente especial e com guarda baixa, interessados nas trocas e ainda com um pouco, ou muita, bebida, também sempre presente nos rituais ancestrais, criaram o ambiente perfeito para que as ideias fluíssem. Foram muitas. Desde uma série para TV em um papo com Edu Lyra e KondZilla, até uma ideia ambiciosa que amadureceu em um papo com Wal Flor, Raul Santa helena e Renato Haramura, para fazer uso da força criativa coletiva que o festival reúne para ajudar a resolver os principais desafios que temos pela frente.

Hugh Forrest (Credit: SXSW)

Voltei inclusive com o cartão do CEO do SXSW, Hugh Forrest, que pareceu ter curtido a possibilidade e quer recebê-la estruturada por e-mail.

Ainda sobre a inteligência social, saí com um sentimento de que muitas vezes, conteúdos incríveis, compartilhados pelas maiores autoridades dos temas, ficavam pouco atraentes, gerando bocejos na plateia, exatamente pela falta de ingredientes expressivos que transcendem nossa intelectualidade. Não dá para desprezar a forma. Como defende Marshal McLuhan, o meio é a mensagem. A forma como transmitimos informações moldam nossa compreensão. Quando uma mesa é montada com quatro especialistas com algum assunto incrível, mas que investiram pouco na forma de compartilharem suas experiências e, ainda por cima, com um mediador sem carisma, é um grande desperdício de energia. O encontro entre aquelas inteligências acumuladas no palco e a plateia ávida pelo conhecimento não acontece na plenitude.

O contraponto foi a participação do Kdu dos Anjos, da ONG Lá da Favelinha, que no final da sua apresentação na casa São Paulo levantou e declamou uma poesia ritmada e potente que traduzia em prosa tudo o que foi discutido naquela manhã do “Favela Day”, por sinal uma das melhores experiências do festival.

Casa São Paulo at SXSW (Credit: São Paulo State Department of Culture)

Ali a forma era parte do conteúdo. Ele todo vestido com flores bordadas fez a plateia se emocionar e aplaudir de pé. O recado estava dado. Mensagem contundente da realidade das comunidades, seus sonhos e ambições, indo direto para nossas cabeças, mas passando pelo coração.

Na Tátil chamamos de Design Feeling a tecnologia de garantir conexões emocionais entre conteúdos e audiências, sempre passando pelas dimensões poéticas e estéticas. Inclusive acho que existe um espaço enorme para o Brasil, que tinha a maior delegação na plateia mais pouco presente nos palcos.

Somos um povo fera demais em engajar pela emoção. Podemos dar nossos recados para o mundo misturando nossa erudição com nosso borogodó. Fica a dica para todo mundo que sentir o chamado aplicar seus conteúdos no ano que vem. As inscrições começam em junho.

Para fechar, vale citar o começo, mais precisamente a palestra de abertura do festival em que a cientista da NASA, Lori Glaze, dividiu o palco com a poetisa americana Ada Limón. Uma poesia de Ada estará gravada em uma placa na nave que chegará em Europa, uma das luas de Júpiter. A NASA acredita que possa existir por lá uma enorme quantidade de água líquida com material orgânico e energia e, quem sabe, vida. Na conversa entre elas o convite era exatamente para que abríssemos espaço em nossa visão de como o futuro emergirá, considerando o balanço entre a tecnologia que está nos levando a explorar o universo com a tecnologia que nos faz ser humanos. Nossos sentidos, nossa capacidade de imaginar, de inventar o abstrato, de fazer arte e poesia. A cabeça e o coração em sintonia para seguirmos em nossa jornada evolutiva.
Aqui, o poema de Ada Limón:

Arqueando sob o céu noturno cheio de expansividade negra, apontamos para os planetas que conhecemos, nós pregamos desejos rápidos em estrelas.

Da terra, lemos o céu como se fosse um livro infalível do universo, experiente e evidente.

Ainda assim, existem mistérios abaixo do nosso céu: o canto da baleia, o pássaro cantante cantando seu chamado no galho de uma árvore sacudida pelo vento.

Somos criaturas de admiração constante, curiosas pela beleza, pelas folhas e flores, pela dor e pelo prazer, pelo sol e pela sombra.

E não é a escuridão que nos une, nem a fria distância do espaço, mas a oferenda de água, cada gota de chuva, cada riacho, cada pulso, cada veia.

Ó segunda lua, nós também somos feitos de água, de mares vastos e convidativos.

Nós também somos feitos de maravilhas, de amores grandiosos e comuns, de pequenos mundos invisíveis, de uma necessidade de clamar na escuridão.

Ada Limon

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Fred Gelli

Comunicação&Mkt&Marca Tátil:
Luiza Magalhães, Marcelo Cândido e Natália Silveira

Assessoria:
Flávia Nakamura

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