O meteoro, o bufão e meu primeiro carro chinês

Se tem uma coisa que aprendi, tendo a natureza como principal fonte de inspiração há tanto tempo, é que, na jornada evolutiva, não existe jogo ganho para ninguém. Você pode ter a força e o tamanho de um tiranossauro rex, um histórico de dominação absoluta do planeta por mais de 150 milhões de anos, mas, da noite para o dia, tudo pode mudar. Ser extinto, perder relevância, na verdade, é o destino inexorável de tudo que existe no universo. A entropia, o colapso, abrem espaço para o novo. Nem as estrelas escapam. Às vezes, o fim é puro acaso — como o meteoro do tamanho do Monte Everest que caiu no Golfo do México, não dando chances aos dinossauros —, mas, muitas vezes, é mais caprichoso e conta com a ajuda ativa do próprio candidato à extinção. A arrogância, a miopia ou o sucesso desmedido podem ser causas diretas do declínio de pessoas, empresas ou impérios. A história está cheia de exemplos. E, mesmo assim, seguimos tropeçando nas mesmas pedras.

Trabalhando com branding e design há 35 anos, já vimos muitas marcas enfrentando o desafio de renovar sua relevância. O grau de transformação necessário varia conforme o tamanho do gap e o tempo que essas organizações levam para reagir. Costumo dizer que não existe âncora evolutiva mais pesada do que o próprio sucesso. Marcas que brilharam por muito tempo tendem a resistir às mudanças necessárias para seguir vivas — e, às vezes, é tarde demais. O meteoro das startups com pouco a perder é impiedoso. Outras se perdem tentando imitar os concorrentes, abandonam sua natureza e não vão longe. Agora, poucas vezes vi marcas suicidas. Aquelas que, de uma hora para outra, passam a negar tudo o que construíram ao longo de décadas: valores, propósitos, visões. E o resultado?

Basta acompanhar o noticiário global para entender o que está acontecendo com o império americano. Como é possível que uma das marcas mais poderosas do planeta — a marca USA — esteja sendo tão maltratada? Tudo começa pelo CEO. Donald Trump é a caricatura perfeita para encarnar a decadência americana. O nível de bizarrice e irracionalidade não parece ter fim — assim como a apropriação política e ideológica da máquina pública em nome dos caprichos tresloucados (e cruéis) do homem laranja, deixando até alguns de seus maiores apoiadores de cabelo em pé. É verdade que muitas de suas ideias e valores sempre fizeram parte do DNA de uma parcela relevante da sociedade americana. Mas agora, como em vários lugares do mundo, a caixa de Pandora foi aberta — e os monstros estão soltos.

O sonho americano — das oportunidades para todos, da mistura, da liberdade, da democracia como farol do mundo — virou um pesadelo, principalmente para os milhões de imigrantes que ajudaram a construir o país.
E quanto à democracia?

Acho que está na hora de reavaliarmos seu verdadeiro significado. O jornalista Bruno Torturra diz que hoje ela virou o “nome de guerra do capitalismo”. Os multibilionários já não precisam disfarçar o tamanho de sua influência na política e nas decisões do Estado. O que é melhor para poucos se sobrepõe ao que seria melhor para todos. E o mais impressionante: onde está a oposição? O Partido Democrata e boa parte da sociedade parecem paralisados diante do colapso de tudo que ainda sustentava a confiança global no país — o que, segundo pesquisas recentes, já vem corroendo a imagem da marca USA mundo afora.

Mas a evolução é implacável. E não deixa espaço vazio. Quando uma espécie entra em decadência, outras avançam. E é exatamente essa a posição da China no atual ecossistema planetário. Ela vem trabalhando duro, com a disciplina e a visão estratégica que uma cultura de 5 mil anos oferece. Nem as lideranças chinesas mais otimistas podiam imaginar que o adversário facilitaria tanto, fazendo tantos gols contra. O que não diminui a eficiência dos movimentos chineses em todas as áreas do conhecimento humano.

Liderança absoluta em número de doutorandos. Vanguarda tecnológica. Transferência de renda sem precedentes, com a formação de uma classe média de 800 milhões de pessoas. E, talvez, o mais surpreendente: começou a ocupar outro espaço, muito além da geopolítica ou da economia — um lugar na cabeça e até no coração das pessoas.

Na minha cabeça, com certeza, ela já ocupa. Primeiro, por ser a única nação com apetite e capacidade de resistir às bravatas do bufão. Depois, porque venho sentindo na pele os efeitos concretos dos investimentos em branding que a China vem fazendo. E marca, afinal, é a coerência entre storytelling e store doing. E eles vêm entregando.

De fábrica do mundo, símbolo de bugigangas baratas e mão de obra explorada, a China passou a ser referência global em quase todas as frentes: das AIs à sustentabilidade (sim, é hoje a única nação que leva o Acordo de Paris a sério e investe pesado em mudanças climáticas); da exploração espacial às maiores inovações em medicina. Mas é no storytelling que vêm as maiores surpresas. A assinatura “Welcome to the real world”, usada por centenas de influenciadores chineses no TikTok, virou um tapa na cara — especialmente dos americanos — sobre a decadência da marca USA. Um dos vídeos mais virais mostra um chinês falando inglês perfeito, num cenário Pinterest, desafiando os EUA a fazerem uma revolução interna para conter a decadência. Ele lembra que, durante décadas, a relação com a China gerou riqueza para os dois lados — mas, enquanto por lá o dinheiro foi investido em educação, saúde, mobilidade e cidades modernas, nos EUA virou iates, jatinhos e concentração absurda de riqueza. Chama os americanos de viciados em consumo. E cada vez mais pobres. E o pior: parece que a carapuça serviu.

Claro que a China tem problemas — e muitos nem conseguimos acessar, por conta da censura e da falta de liberdade. Mas, quando estudantes são presos dentro de universidades americanas por protestarem contra massacres de civis patrocinados por um aspirante a ditador, de que liberdade estamos falando?
Ah, mas lá não se pode usar WhatsApp ou assistir ao YouTube. Liberdade, então, é poder entregar seus dados às big techs americanas que moldam o curso da história?

“Welcome to the real world.”

É esse o convite que está ecoando pelo mundo. E que, além de revelar uma China surpreendente — bem distante dos clichês —, também escancara o contraste com a propaganda tóxica e as fake news ocidentais. Agora, os chineses parecem mesmo estar dando mais espaço para que o próprio povo mostre o país por dentro. Centenas de vídeos exibem os novos sentidos do “Made in China”: cidades incríveis (e cafonas), restaurantes estrelados, comunidades agrícolas tradicionais, tecnologias, inovação — tudo no scroll do TikTok.

E foi nesse contexto que, querendo comprar um carro novo — um que me levasse o mais perto possível da natureza, por trilhas e estradas alternativas —, acabei, para minha própria surpresa, escolhendo um carro chinês.

E a decisão não foi só porque o carro é incrível, ou porque custava quase a metade do jeep que eu estava de olho.

Foi exatamente porque não era americano.

Era chinês.

Content in partnership with
Fast Company Brasil
Share
Technical sheet

Heading 1

Heading 2

Heading 3

Heading 4

Heading 5
Heading 6

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur.

Block quote

Ordered list

  1. Item 1
  2. Item 2
  3. Item 3

Unordered list

  • Item A
  • Item B
  • Item C

Text link

Bold text

Emphasis

Superscript

Subscript

Texto:
Fred Gelli

Comunicação&Mkt&Marca Tátil:
Luiza Magalhães, Marcelo Cândido e Natália Silveira

Assessoria:
Flávia Nakamura

Additional recommendations for you

1:41
1:48
1:49
2:12
2:16
2:36
2:40
2:43
3:03
3:12
3:19
3:37
3:51
4:08
4:17
4:25
4:38
4:42
4:55
4:59